Minissérie apresenta Quilombo da Caveira em São Pedro da Aldeia

Para marcar o encerramento da Semana da Consciência Negra, a Secretaria Adjunta de Cultura de São Pedro da Aldeia lança mais uma edição da minissérie documental “Cultura Negra e Identidades”. Já está disponível para acesso o último vídeo do projeto, protagonizado pelo líder comunitário quilombola, Roberto dos Santos (clique AQUI para acessar). Com um extenso histórico de luta junto à comunidade, Robertão, como é conhecido, narra a história de resistência de seu povo, suas origens e a importância da preservação da memória e das tradições dos remanescentes do antigo Quilombo da Caveira, no bairro Botafogo. A série completa pode ser conferida na página da Secretaria Adjunta de Cultura no Facebook.

No último vídeo do projeto, Roberto dos Santos narra a história de resistência do povo quilombola de Botafogo
Foto: Raíra Morena

Após 133 anos da abolição da escravatura no Brasil – ocorrida em 13 de maio de 1888 –, a comunidade remanescente de quilombo do bairro Botafogo ainda tenta preservar as suas origens e costumes. Localizada na zona rural de São Pedro da Aldeia, a 12 quilômetros do Centro da cidade, a comunidade da Caveira conta, atualmente, com cerca de 600 famílias, entre descendentes de quilombolas e outras vindas posteriormente de outros municípios e estados.

Foto: Raíra Morena

“Nesse território ficava a Fazenda da Caveira. Para chegar aqui, os escravos vinham pelo oceano, passavam por Búzios, pegavam o canal de Una, de barco, e chegavam na Fazenda Campos Novos, que funcionava como o centro distribuidor dos escravizados africanos. Os escravos chegavam aqui extremamente debilitados e muitos morriam. Com isso, pilhas de cadáveres eram enterrados, com correntes ainda nas pernas. Vem daí a origem do nome ‘Caveira’”, explica Robertão, atual presidente da Associação dos Remanescentes de Quilombo de Botafogo-Caveira.

Aos 66 anos, Roberto dos Santos é um dos guardiões da memória local e mantém vivo o que aprendeu com seus pais e avós sobre as origens da comunidade. “Meus avós vieram de Glicério, perto de Sana e Bicuda Grande, e se juntaram à essa comunidade. Era um matagal imenso. Ao chegar aqui, eles encontraram a Fazenda Campos Novos, mas para terem o direito de usar a terra, eles tinham que pagar um dia de enxada. Hoje, se paga o IPTU, mas naquela época, no final do século XIX, era com trabalho braçal. E meu pai, sendo um dos filhos mais velhos da minha avó, pagava com um dia de serviço”, conta.

Aos 66 anos, Roberto dos Santos é um dos guardiões da memória local
Foto: Raíra Morena

Resistência

A comunidade descende de negros que já ocupavam a área mesmo antes da abolição do regime escravocrata, trabalhando na lavoura com cultivo de milho, feijão e mandioca e na criação de pequenos animais, como galinhas e porcos. Os laços de parentesco e de solidariedade entre os moradores foram características fundamentais para a união das famílias na luta contra a perseguição étnico-racial e as tentativas de expulsão, a partir do final da década de 1950, por parte dos supostos donos – fazendeiros que tomavam posse da terra.

No final século XIX, as terras quilombolas em Botafogo eram alvo de ataques
Foto: Raíra Morena

“Os quilombolas são aqueles que venceram pela resistência. Os fazendeiros chegavam aqui, espancavam e botavam fogo nas casas. Os homens tinham que se esconder no mato e cair na capoeira. Só depois que a poeira assentava, voltavam para as suas mulheres e filhos. Me lembro da minha mãe e das minhas tias indo para o mato levar comida e água. Teve um senhor chamado Dácio Sá, que dizia que a terra era dele, que chegou a botar a espingarda no peito do meu tio para matar. Meu avô, vendo aquela cena, faleceu ali, gritando ‘não mata o meu filho, não mata o meu filho!’. A gente suspeita que ele teve um infarto”, relata.

Conquistas

Criada por volta de 1950, a Associação dos Lavradores de Botafogo e Caveira, que depois passou a se chamar Associação de Remanescentes de Quilombo, funcionava como um ponto de apoio em meio ao cenário hostil e opressor, por meio do qual os comunitários buscavam ajuda legal e aconselhamento jurídico para pagar pelo uso da terra. “A Associação foi o início de muitas benfeitorias para a nossa comunidade. A sede servia para reuniões, atendimentos médicos, acesso à rede de água, através do poço, cursos e educação de jovens e adultos”, conta Robertão.

Foto: Raíra Morena

Em 2004, a Fundação Cultural Palmares reconheceu oficialmente o povo da Caveira como comunidade quilombola. A certificação é um instrumento que permite a inclusão das famílias nas políticas públicas específicas para estes povos. Outro grande marco veio em 2013 com a construção da primeira escola quilombola do Estado do Rio de Janeiro, a Escola Rosa Geralda da Silveira – uma homenagem a Dona Rosa Geralda, grande produtora de farinha do quilombo e uma das protagonistas das lutas da comunidade. Hoje, a unidade escolar municipal atende 324 alunos da Educação Infantil e Primeiro Segmento.

Práticas pedagógicas na Escola Municipal Quilombola Dona Rosa Geralda da Silveira enaltecem os elementos da identidade quilombola
Foto: Raíra Morena

“Na minha época de criança, nós não tínhamos escola aqui. Para termos acesso à escola, que ficava em São Mateus, nós tínhamos que andar uma média de 15 quilômetros a pé todo dia. Então, a chegada da Escola Quilombola foi um ganho muito grande e motivo de orgulho para nós. Hoje, o ônibus busca e leva as crianças, tem café da manhã e almoço na escola, com itens da agricultura familiar quilombola, tem professor de capoeira e vai ter aula de jongo. A construção da escola foi um grande serviço à comunidade, além de ser um espaço de resgate e valorização das nossas origens e tradições”, finaliza.

Escola, localizada na Estrada da Caveira, foi a primeira unidade de ensino quilombola inaugurada no Estado do Rio de Janeiro
Foto: Divulgação

Cadastro realizado com sucesso

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